Carnaval é caso de política

Na luta pelo direito à cidade, um forte viés de contestação

Por Cida Falabella – Vereadora pelo PSOL/BH

Em 2009, um grupo de BH iniciou um processo de experimentação do Carnaval de rua, restrito até então ao desfile das escolas de samba e a alguns blocos tradicionais. Entre os desejos, estava o de ocupar o espaço público contestando a lógica mercantilista e normatizadora da administração do então prefeito Marcio Lacerda. Essa lógica culminou, em 2010, no decreto que proibia qualquer manifestação na praça da Estação e que levou ao surgimento da Praia da Estação. Nossa alegria praiana deu fôlego ao Carnaval e, apesar do poder público – que fez de tudo para acabar com a festa –, os blocos se multiplicaram. Hoje, os três primeiros bloquinhos dessa história – Tico-Tico Serra Copo, Peixoto e Proa – se unem a mais de 500 em um dos maiores Carnavais de rua do país.

Assim, ressurgido no âmbito da luta pelo direito à cidade, o Carnaval da capital tem um forte viés de contestação política. Nesses dez anos, abraçamos a luta pelo córrego do Onça com o já citado Tico-Tico, percorremos as ocupações de Izidora e do Barreiro com o Filhos de Tcha-Tcha, lavamos as escadarias da prefeitura com o Bloco da Praia, lembramos que cultura é diversidade com o Corte Devassa, exigimos mobilidade urbana com o Pula Catraca e mais ciclovias com o Bloco da Bicicletinha. Em 2019, entre várias manifestações, homenageamos Marielle Franco no Sagrada Profana e Jean Wyllys no Alô Abacaxi, pedimos Lula livre no pioneiro Peixoto e justiça para as vítimas da Vale no Chama o Síndico. No Orisamba, informamos: não calarão nossos tambores. O emocionante Angola Janga levou para a avenida ícones históricos e contemporâneos dos movimentos negros. Mestre Môa, presente!

Nesta década, a relação com a PBH mudou, e a Belotur hoje conta com uma equipe mais preparada para lidar com a folia. Alguns pontos ainda têm muito a avançar. É necessário que a recém-criada Secretaria Municipal de Cultura aproxime-se do Carnaval e que o apoio à festa se traduza em uma política pública estruturante e continuada. Precisamos também de outra política com as trabalhadoras e os trabalhadores ambulantes. Em 2017, uma ação articulada com a Assessoria Popular Maria Felipa, o nosso mandato coletivo e os ambulantes derrubou o monopólio que a prefeitura tinha negociado com a Ambev. Neste ano, levamos para as ruas a campanha “Meu Carnaval é ambulante”.

O que não avança é a postura da Polícia Militar de Minas Gerais. São muitos os relatos de ações de truculência e intimidação e que não se traduzem em mais segurança, uma vez que violência contra mulheres, mortes, tiroteios e facadas foram notícias que nos entristeceram nesses dias. A atitude da PM contra o Tchanzinho Zona Norte, porém, surpreendeu pelo caráter antidemocrático. Na sexta-feira, o bloco foi ameaçado pelo chefe do policiamento no local, capitão Lisandro Sodré: se o Tchanzinho insistisse em gritos contra Bolsonaro e a favor de Lula, a tropa que fazia a segurança da festa seria retirada. No dia seguinte, o porta-voz da corporação, major Flávio Santiago, deu respaldo à chantagem. Em resposta, o Ministério Público Federal, o Ministério Público de Minas Gerais e as defensorias públicas da União e do Estado recomendaram que a PMMG cumprisse o dever de manter a segurança sem condicionar o trabalho ao discurso dos foliões. Os órgãos destacaram que tais tentativas de cerceamento da liberdade de expressão podem ser consideradas “censura institucional, ilegal, inconstitucional e, ainda, punida como crime de abuso de autoridade”.

A atitude do capitão – contraditoriamente, um ato político – nos lembra os momentos mais sombrios de nossa história recente. Mas seguiremos em resistência democrática, e nossa resistência é na rua, purpurinada, carnavalizada. Nossa carne, nosso coração e nossa luta são de Carnaval.

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