Censura nunca mais

A narrativa histórica sempre foi um lugar de disputa política

Os três últimos legítimos presidentes da República do país – Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff – têm em suas trajetórias reconhecida luta contra a ditadura militar e pela redemocratização do Brasil. Dilma Rousseff, a primeira mulher a assumir a Presidência da República, era uma ex-presa política que chegou ao mais alto posto de representação do país. Em seu corpo, memória e história, marcas físicas e psicológicas da violência sofrida nas mãos do Estado ainda aos 19 anos.

Quanta diferença de quem, agora, ocupa o poder! Jair Bolsonaro, o primeiro presidente eleito após o golpe que tirou Dilma Rousseff da Presidência da República sem crime de responsabilidade e que prendeu Lula da Silva, injustamente, é a antítese de um democrata.PUBLICIDADE

Em polêmica recente, das muitas que já criou em apenas três meses de governo, recomendou que o Exército fizesse as “devidas comemorações” de 1964, proibidas, vale dizer, pela sua antecessora e militante. Do Whatsapp oficial do Palácio do Planalto, usado para passar informações de utilidade pública à população, partiu um vídeo que propõe um perigoso revisionismo de nossa história.

A narrativa histórica sempre foi um lugar de disputa política, em que os “donos do poder” atuam para esconder suas incorreções ao longo da história. Rui Barbosa fizera isso queimando documentos da escravatura. Já os militares atuaram e, mesmo após os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, ainda atuam para impedir o amplo acesso aos arquivos da ditadura. Qualquer proposta revisionista, que propõe apagar os desvios do Estado brasileiro, constitui um desrespeito à história e à memória do país, às pessoas mortas e desaparecidas, às tribos indígenas escravizadas e dizimadas, às centenas de pessoas torturadas e às famílias que sofreram por não poderem enterrar seus entes queridos.

Nos Anos de Chumbo, a arte era a voz contra as atrocidades do regime e um clamor por liberdade. Entre os muitos artistas que se levantaram contra a ditadura, estava Zuleika Angel Jones, a Zuzu Angel, que usou das passarelas de moda e de seu reconhecimento internacional para denunciar ao mundo o brutal assassinato de seu filho. A convite do grupo Sapos e Afogados, tive a emoção de interpretar Zuzu no ensaio fotográfico “Louca da Laje”, edição 2016/2017. Nos últimos dias, troquei minha foto de perfil pela de Zuzu, minha singela “descomemoração” do golpe, minha homenagem a essa artista e mãe, como também sou, que ousou enfrentar os militares no poder e faleceu em situação obscura, num acidente de carro em 14 de abril de 1976.

Assim como em 1964, o presidente Jair Bolsonaro e sua turma, em sua jornada moralista, militarizada e revisionista, direcionam seus ataques para a cultura e a educação. Acabaram com o Ministério da Cultura, anunciaram que vão censurar o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) e usam seu exército bitolado nas redes sociais para atacar artistas e instrumentos de fomento à imensa rede de agentes da cultura brasileira. Eles sabem que virá dos artistas, das professoras e dos povos tradicionais, uma resistência poderosa a seu projeto de país. Eles sabem que as arenas da cultura viva brasileira seguirão com sua função questionadora, transgressora e ainda mais democrática. Como diz a atriz Fernanda Montenegro, em sua resiliência poética, “se eles nos engolirem, viveremos dentro deles”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s