Em nome de Maria, extremistas promovem onda de ódio em BH

Por Cida Falabella – Vereadora pelo PSOL/BH

Como tantas mulheres brasileiras cujas mães rezaram grávidas aos pés da padroeira — e sou devota de Nossa Senhora Aparecida. Aprendi tarde esse valor.

O nome dado por minha mãe, dona Cely, ecoou em mim aos 50 anos, quando entrei naquele templo distante e desatei a chorar. Desde então, nunca mais me apartei da santa e, nos momentos mais difíceis, me ajoelho à sua frente e acendo uma vela.PUBLICIDADE

No ano em que minha mãe morreu, 2017, eu e minhas irmãs, Carmen e Consuelo, voltamos a Aparecida. Era o jubileu de 300 anos da descoberta da imagem, e a cidade e a Basílica estavam ainda mais bonitas, inundadas pela força da fé de milhares de pessoas.

Bem antes disso, ainda menina, colocava palma nas coroações de maio e cantava glórias à Nossa Senhora. Minha filha caçula um dia pôs coroa, que emoção!

Na capelinha da Vila Belém, os cabelos de cachinhos enrolados no dedo, a roupinha de cetim rosa com asinhas, aquele monte de criança junto.

Tempos depois, Nossa Senhora seguiria me emocionando a partir das representações no teatro e no cinema.

A que mais gosto é a do “Auto da Compadecida”, quando Maria e seu filho negro, Jesus, fazem justiça e exigem coerência. Ah, Suassuna! Ah, o teatro popular! Sabe de tudo e sempre questiona os poderosos.

Há alguns anos, dirigi a peça “Caminho da Roça”, em que Nossa Senhora era interpretada por Chico Aníbal. Colocamos o Chico com vestes azuis e rosas em cima de um skate forrado de chita que peguei dos meus filhos. Puxávamos a cordinha amarrada no skate, e Chico saia de cena lentamente com essa música ao fundo: “no céu, no céu, no céu, eu hei de ir um dia, no céu, no céu, no céu, eu hei de ver Maria”. O público amou aquela figura tão firme, tão serena.

No ano passado, me deparei com mais uma representação emocionante de Maria: a performance “Coroação de Nossa Senhora das Travestis”, da Academia Transliterária.

Aqui, o cortejo e a coroação é uma celebração, uma homenagem e um pedido de acolhimento, de colo materno para viver a vida com as graças que todas e todos merecemos.

Foi essa performance que, após uma onda de fake news e ódio orquestrada por movimentos de extrema direita, a Prefeitura de Belo Horizonte censurou e cortou da Virada Cultural, ocorrida no último fim de semana.

A sanha fascista tem colocado a arte, novamente — como nos mais sombrios períodos da nossa história —, no alvo. Para isso, além das mentiras, utiliza-se de muito senso comum com frases como “religião e arte não se misturam, política e arte não se misturam”. Falta entendimento do que é arte, sobra ignorância e perversidade.

A arte existe para nos deslocar, abrir janelas insuspeitas no nosso olhar viciado, trabalha com signos e com ressignificações.

Nesse sentido, símbolos religiosos podem, sim, estar na arte, como estão na vida, pois fazem parte da cultura e do simbólico da nossa construção social. E esse é o papel da arte trans: transmutar, revelar.

Os que têm ódio, no entanto, não querem compreender, dialogar, se aproximar nem mesmo discordar.

O que os move é o impulso de aniquilamento. “Estamos preparando a fogueira para queimar vocês”, “é por isso que vocês apanham”, “escória da humanidade”, “Marielle já se foi, agora são vocês” foram algumas das mensagens recebidas pelas integrantes do grupo, disparadas por pessoas que dizem defender Nossa Senhora, tamanha a contradição.

Esses ataques odiosos me causaram imenso horror. Nesta noite, imaginei uma cena: uma travesti da Academia Transliterária chega em casa exausta de tanto ódio e injustiça, ajoelha-se diante do pequeno altar que montou para Nossa Senhora Aparecida, acende uma vela e ali mesmo se deita, acolhida pela bondade e pelo amor infinitos de Maria, que lhe volta seus olhos misericordiosos e lhe livra de todo o mal.

Amém!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s