Quem cuida das nossas crianças?

Por Cida Falabella – Vereadora pelo PSOL/BH

Durante a pandemia, como sempre, as mulheres têm que se virar para trabalhar, cuidar da casa e dos filhos. Uma sobrecarga – principalmente para as mães solo – que só escancara as desigualdades de gênero, classe e raça em nosso país. As crianças estão sem escola, e, para muitas de nós, o trabalho presencial nunca parou ou já foi retomado. Para piorar, nesse contexto, recorrer à ajuda de familiares, amigas e vizinhas para cuidar dos nossos filhos e netos pode aumentar os riscos para a saúde de todas. Conversamos sobre esse cenário com mães e educadoras na Comissão de Mulheres da Câmara Municipal nesta semana.

“Meus filhos não conseguem estudar e vão ficar defasados”, foi a fala recorrente das responsáveis por estudantes matriculados na rede estadual. Enquanto o governo de Minas insiste num modelo de ensino a distância questionável, o temor é que isso aprofunde ainda mais as desigualdades. Nas bordas, falta internet, falta computador, falta estrutura em casa para apreensão do conhecimento no ambiente doméstico. Mesmo assim, o ano letivo segue para esses estudantes. Não há igualdade de oportunidades se alunos ricos de escolas particulares esbanjam condições de aprender em casa.PUBLICIDADE

A Secretaria Municipal de Educação – que acertadamente suspendeu o ano letivo e não adotou EaD – convocou recentemente as professoras para o trabalho remoto com o objetivo de manter diálogo à distância com os alunos, estudar formas de ofertar atividades não presenciais e planejar um retorno à escola seguindo protocolos sanitários e pedagógicos. Embora a solução apresentada para viabilizar o trabalho das profissionais sem acesso à internet seja insuficiente, as orientações da Smed reforçam questões importantes – não confunde as trocas entre crianças e educadoras com a retomada do ano letivo, aponta a necessidade de um estudo sobre as condições socioeducacionais das famílias e pensa o ensino a partir da experiência coletiva da pandemia.

Desemprego

No entanto, a grande contradição permanece: o caso da moradora do Morro do Papagaio que desistiu de buscar o material pedagógico disponibilizado pela escola por não saber ler e escrever e não conseguir ajudar seus filhos nos estudos é emblemático, ganhou destaque na imprensa, mas está longe de ser um caso isolado. A vida real urge. São 7 milhões de mulheres que deixaram o mercado de trabalho no Brasil só na segunda quinzena de março. As que mantiveram seus empregos continuam sem ter onde deixar os filhos. Pior ainda com bebês e crianças pequenas, que dependem diretamente do cuidado de outros adultos.

Como não se lembrar da morte do menino Miguel que, por negligência da patroa, caiu do nono andar do prédio onde trabalhava sua mãe, a doméstica Mirtes de Souza? Como não responsabilizar o Estado, que permite que essas trabalhadoras sejam obrigadas a exercer suas atividades em meio à crise do coronavírus, expondo suas famílias a riscos irreversíveis?

Por isso, a bancada do PSOL na Câmara dos Deputados, incluindo minha companheira de Gabinetona Áurea Carolina, apresentou o Projeto de Lei 2.477/2020, que busca impedir que o serviço doméstico remunerado seja considerado atividade essencial durante a pandemia da Covid-19 e assegurar a manutenção da remuneração dessas trabalhadoras durante o estado de calamidade pública.