Ódio às mulheres

Por Cida Falabella – Vereadora pelo PSOL/BH

Em 2019, os casos de feminicídio aumentarem drasticamente em Belo Horizonte. Foram cinco mulheres assassinadas apenas no mês de setembro. Em Minas Gerais, em 2018, uma mulher foi morta a cada 56 horas, levando o Estado ao primeiro lugar no número de feminicídios do país. No contexto de pandemia, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta um aumento de 22% dos casos de feminicídio em todo o país entre março e abril.

Apesar dos números alarmantes, a Câmara Municipal rejeitou a criação do Dia Municipal de Combate ao Feminicídio. O projeto de lei proposto pela Gabinetona (vereadoras Cida Falabella e Bella Gonçalves) teve 18 votos contrários. Parte desses vereadores alegou ser a favor da proposta, mas contra o texto do projeto por conter a palavra “gênero’”.PUBLICIDADE

Não é possível separar linguagem de prática. O então deputado federal Jair Messias Bolsonaro voltava seu escárnio misógino e LGBTfóbico contra Maria do Rosário e Jean Wyllys, atacava jornalistas mulheres e relacionava o nascimento de sua filha a uma “fraquejada”. Com essa postura odiosa, construía o imaginário do machão capaz de subjugar as mulheres que, nas últimas décadas, ousaram ocupar a arena pública, enfrentar o poder patriarcal nas ruas e nos lares brasileiros e ameaçar a hegemonia de homens brancos e ricos à frente dos processos decisórios da nação.

Foi dessa forma inescrupulosa que Bolsonaro conquistou parte de seu eleitorado e, assim que empossado, colocou em prática o projeto político já anunciado, atuando para desmontar a rede de proteção e as políticas sociais.

Em um de seus mais recentes ataques à vida das mulheres, o governo brasileiro se opôs, na ONU, a citar “saúde sexual e reprodutiva” num texto proposto por países africanos para banir a mutilação genital feminina.

O bolsonarismo vem se alastrando em Belo Horizonte e comprovando sua capacidade destrutiva no Parlamento municipal. Assim como a figura na qual se espelham, vereadores fundamentalistas defendem um projeto político excludente e opressor. A rejeição ao Dia Municipal de Combate ao Feminicídio pegou tão mal diante da população que o projeto foi reapresentado em um “copia e cola” maldisfarçado, retirando as palavras “gênero” e “machismo”.

Não é uma simples mudança. A supressão da palavra “gênero” mostra a intenção de seguir excluindo do debate e de qualquer política pública as mulheres transexuais e lésbicas. Já “machismo” foi excluído para não irritar a base eleitoral de homens que cultivam uma masculinidade tóxica, fazem arminha com as mãos e minimizam a violência cotidiana à qual as mulheres estão submetidas.

As mulheres da capital mineira, no entanto, têm uma tradição consolidada na luta por direitos. Em 1980, cerca de 400 mulheres se reuniram em frente à escadaria da igreja São José para dizer “não” à violência machista. O ato deu início ao movimento Quem Ama Não Mata, que resultou na criação do Centro de Defesa dos Direitos da Mulher e foi reeditado em 2018.

Na história recente, milhares de mulheres tomaram as ruas de BH na chamada Primavera Feminista de 2015. Foi também na capital que, no dia 8 de março de 2016, surgiu a ocupação Tina Martins, posteriormente, Casa de Referência Tina Martins, uma das mais revolucionárias iniciativas populares de apoio às mulheres em situação de violência. Por toda a cidade, as mulheres estão à frente de suas comunidades, liderando redes de solidariedade e ação cidadã, que vêm se mostrando essenciais no enfrentamento à crise do coronavírus.

E esses são apenas alguns dos muitos exemplos. E é por causa de nossa força crescente que a misoginia se potencializa. Como disse Marielle Franco, no entanto, nós não seremos interrompidas.