Uma cidade para crianças

A primeira infância precisa ser prioritária para BH
Por CIDA FALABELLA| VEREADORA EM BELO HORIZONTE (MUITAS| PSOL)

Recentemente, virei avó. Sou mãe de três – criei meus meninos numa correria danada, uma labuta, acho que nem vi o tempo passar. O nascimento do meu neto me chamou para descobrir a diversidade geracional, me aproximou do tempo das crianças pequenas, enquanto me tornava sexagenária, oficialmente idosa.

A cultura viva ensina que bebês e anciãos precisam viver em comunidade, por meio de interações e aprendizagem contínuas. A “primeira infância” é um momento especial da vida, que requer cuidados de todo o conjunto da sociedade. Desde o início, nosso mandato desenvolve um observatório constante das políticas públicas para a educação infantil, que deve ser prioridade de atenção do município.

No geral, a condução das políticas para a educação na pandemia revelam as diferenças entre Bolsonaro, Zema e Kalil. O presidente odeia a educação, o governador a desconhece, e o prefeito tem suas limitações. Como sempre, a situação de bebês e crianças pequenas tende a ser invisibilizada e precisa de atenção especial.

Antes da pandemia, “escolinhas” públicas, parceiras e privadas atendiam, diariamente, cerca de 105 mil crianças de 0 a 5 anos em Belo Horizonte. A correta decisão de fechar as escolas complicou ainda mais a vida das mães que não possuem uma rede de apoio neste momento. Muitas mulheres nunca pararam ou já retornaram ao trabalho e “não têm com quem deixar” os filhos. Normalmente, a solução que encontram aumenta o risco de contágio. Além disso, surgem relatos de solidão e adoecimento físico e mental das crianças.

Como tenho falado, vivemos um risco de colapso do sistema municipal de educação infantil: “escolinhas particulares” podem entrar em falência generalizada, o que arrisca o emprego de milhares de mulheres, enquanto muitas crianças e famílias precisam de atendimento. Sem a rede privada, a migração em massa das matrículas pode estrangular a rede pública, justo no delicado processo da retomada presencial.

Concordei com a orientação da Secretaria Municipal de Educação do governo Kalil, que convocou as professoras para o trabalho remoto, indicando a valorização dos saberes a partir da pandemia, a continuidade da manutenção de vínculos com estudantes e a realização de um mapeamento socioeducacional de cada comunidade escolar. As professoras fazem justa reivindicação por boa internet e bons equipamentos para execução do teletrabalho.

Agora, precisamos avançar na discussão do atendimento prioritário emergencial às crianças em alta vulnerabilidade, identificando aquelas em maior risco social (extremamente pobres, em situação de abuso ou violência, sem rede de proteção familiar, filhas de trabalhadores dos serviços essenciais etc.) para que educação e saúde definam, juntas, protocolos sanitários e pedagógicos para atendê-las assim que possível, garantindo também equipamentos e medidas de segurança para o trabalho das educadoras.

No fim de semana, eu e minha parceira querida Áurea Carolina, recém-mamãe, fizemos um encontro para conversar sobre esse trabalho da Gabinetona. Também participaram professoras e gestoras (da rede pública e particular), conselheiras municipais de educação, pesquisadoras, mães e suas crias. Conversamos muito sobre os impactos da “crise social de origem sanitária” que vivemos e como ela atinge especialmente as crianças.

Para além da escola, essas reflexões dialogam com a infância. Um dos momentos que mais tocaram meu coração de vó foi a discussão sobre o direito das crianças pequenas à participação democrática. Nossa luta por cidades mais democráticas precisa incluir as crianças como sujeitos políticos. Uma cidade que acolhe pequenos e idosos acolhe todas as pessoas. Uma cidade feminista acolhe também os nossos bebês.